A INSERÇÃO DO
TEMA EDUCAÇÃO AMBIENTAL
NAS ESCOLAS
Contar da experiência de
inserir temáticas relacionadas à educação ambiental nas escolas é uma tarefa
que não me será possível cumprir, uma vez que não vivo essa experiência: posso
contar, sim, de minhas percepções, do que observo, do que acaba chegando a mim
pela vivência num ambiente educacional que não é uma escola.
Porém, quero relatar o que
me ocorreu ao ler, dentre os textos indicados, os Parâmetros Curriculares
Nacionais – Meio Ambiente.
Os desafios a
enfrentar - Logo na página de APRESENTAÇÃO (169), no primeiro parágrafo,
uma constatação conhecida de todos nós: “São grandes os desafios a enfrentar”.
Segundo parágrafo, outra: “Os alunos podem ter nota 10 nas provas, mas, ainda
assim, jogar lixo na rua, pescar peixes-fêmeas prontas para reproduzir, atear
fogo no mato indiscriminadamente, ou realizar outro tipo de ação danosa...”. E,
no terceiro parágrafo, a questão que deve angustiar a todos os seres
conscientes da importância do cuidado com o nosso planeta: “Como é possível,
dentro das condições concretas da escola, contribuir para que os jovens e
adolescentes de hoje percebam e entendam as consequências ambientais de suas ações
nos locais onde trabalham, jogam bola, enfim, onde vivem?”
Sabemos que as alterações
no ambiente ocorrem como consequência do acelerado processo de desenvolvimento,
e que as novas tecnologias – todas elas – possuem o seu lado perverso, o seu
contraditório. E a lição que o homem precisa aprender, urgentemente, é como
superar o desafio de concertar suas ações à constância da evolução que é parte do nosso crescimento,
como habitantes que somos de um mundo que está em processo de mudanças, sempre,
desde sempre, para sempre.
Um outro modo
de perceber o planeta: é isso que deve ser alterado na forma como (con)vivemos:
a interação sociedade/natureza não está ocorrendo de modo a respeitar bens tão
preciosos à manutenção de nossa vida. A especulação acerca de recursos
naturais, o consumo em larga escala, a exploração desses bens: esses itens que
atendem, em primeiríssimo lugar, às leis de mercado são utilizados como se esses
benefícios que a natureza nos proporciona finitos não fossem.
E, embora pobreza,
injustiça social, baixa qualidade de vida (a mim, são sinônimos) seja uma
constante em toda a trajetória humana (desde seus primórdios), evidente que o
descaso com questões ambientais potencializa esses problemas. Afinal, como já
dito e repetido, a questão ambiental não trata apenas da água, da terra, do ar,
do lixo: a questão ambiental permeia toda a atividade dos grupos humanos. E
importa, acima de qualquer outra iniciativa, ter em mente que
Transformar e
aprimorar a relação entre os seres humanos e desses com o ambiente deve ser o
maior objetivo da educação ambiental, lembrando que o termo “ambiente” é muito
mais que o ambiente natural: incluímos também os modificados pelo homem, como
as instituições sociais, a escola, o ambiente de trabalho, a vizinhança etc. (SEMAD,
s/d)
Urge, pois, que sejam pensadas e levadas a efeito “alternativas que
conciliem, na prática, a conservação da natureza com a qualidade de vida das
populações que dependem dessa natureza” (PCN, p. 176). Afinal, conforme consta
nas páginas dos PCNs, “a garantia efetiva da sustentabilidade exige uma
profunda transformação da sociedade (e do sistema econômico do capitalismo
industrial)” (PCN, p. 178). Essa transformação implicaria o “uso dos recursos
renováveis de forma qualitativamente adequada e em quantidades compatíveis com
sua capacidade de renovação”, e trariam no seu bojo “relações sociais que
permitam qualidade adequada de vida para todos” (Id. Ib.).
A precisão das letras - Como pode ser
observado até aqui, o texto dos PCNs relacionados ao meio ambiente trata, com a
precisão das letras, do assunto. Mas deixa bem claro que “ainda não foi posta
em prática boa parte dessas diretrizes e metas, principalmente as de grande
escala, pois a competição no mercado internacional não permite” (PCN, p.178).
Um balde de água fria, um desencorajamento, sensação de impotência... Ah,
melhor deixar para lá. Se um texto que vem para mostrar soluções, me diz que
não é possível, devo cruzar os braços e esperar que gerações futuras resolvam o
impasse (?)... E logo após (p. 180) afirma que “isso implica um novo universo
de valores no qual a educação tem um importante papel a desempenhar.” Esse isso está relacionado à busca de novas
formas de pensar e agir, novos modelos de produção de bens, garantia de
sustentabilidade etc. Não parece que o “sistema” está se omitindo e
transferindo responsabilidades? Ainda que a afirmativa colocada um pouco
adiante relativize essa “transferência”: “Evidentemente, a educação sozinha não
é suficiente para mudar os rumos do planeta, mas certamente é condição
necessária para isso” (PCN, p. 181), fica um certo desconforto em quem lê.
Como faço parte do grupo meio démodé (até a palavra démodé é démodé!) dos
últimos dos românticos, fiquei feliz ao ler no documento o seguinte: “Só quando
se inclui também a sensibilidade, a emoção, sentimentos e energias se obtêm mudanças
significativas de comportamento.” Três linhas adiante, uma assertiva que, num
discurso coloquial, eu diria que “fechou”, “arrasou”: “É preciso então lidar
com algo que nem sempre é fácil, na escola: o prazer” (PCN, p. 182). Após essa
leitura, vieram à minha mente textos do Rubem Alves, para quem o prazer no ato
de ensinar e no ato de aprender é essencial.
Pontos de discordância - Apreciei a
leitura dos PCNs, hoje como estudo e não apenas leitura, embora com as
ressalvas colocadas no texto. Devo ressaltar, no entanto, que discordo quando (p.
182) faz-se referência a preconceitos e “à veiculação de algumas imagens
distorcidas sobre as questões relativas ao meio ambiente”, e se estabelecem
alguns pontos de defesa.
É um luxo e um despropósito defender, por exemplo,
animais ameaçados de extinção, enquanto milhares de crianças morrem de fome ou
de diarreia na periferia das grandes cidades, no Norte ou no Nordeste. (PCN,
p.183)
Sim, eu concordo que é um
luxo, em muitos casos. Vemos, por exemplo, um animal sendo amamentado (em
mamadeira de verdade!) por uma equipe uniformizada, bem cuidada, em ambientes
agradáveis sob o ponto de vista de decoração mesmo; e me pergunto: fariam o
mesmo por uma criança?! E se uma criança de rua passa em frente a uma loja que
vende televisores e assiste à cena? Como vai se sentir? Valendo menos que um
bicho!
Se a educação (não apenas
a da escola) fosse relevante (se tivesse sido ao longo dos séculos), o homem
aprenderia a não destruir o planeta em prol de seus interesses financeiros e aí
não teríamos animais em extinção. E nem teríamos tantas crianças abandonadas não sendo cuidadas com o interesse
governamental (humanitário) que o caso exige.
Por isso, enfatizo que
discordo quando o texto cita que “a situação das crianças no Brasil não compete
com a situação de qualquer espécie ameaçada de extinção” (PCN, p.183.) A meu
ver, compete sim!
As pessoas que sofrem
privações econômicas são as maiores vítimas da mesma lógica que condena os animais à extinção e que condenará cada vez mais as crianças
das próximas gerações: a lógica da acumulação da riqueza a qualquer custo,
com exploração irrestrita da natureza e o desrespeito ao próprio ser humano.
(PCN, p. 184)
Nem gostei de ler isso:
colocou no mesmo “balaio de gato” (perdoem o trocadilho!) crianças e animais. De
fato, uma bofetada na nossa (minha) cara.
Para
finalizar, algumas considerações - O texto em si é bem interessante de ser
lido e conduz você a alguma reflexão, qualquer que seja ela, mas sempre uma
reflexão. Em páginas seguintes, trata da formação continuada do professor, de
seu papel como orientador de condutas concernentes ao meio ambiente: enfim, uma
gama de sugestões e de procedimentos. Como adequadamente fica registrado no
texto: “eles (professores) também estão em processo de construção de saberes e
de ações no ambiente, como qualquer cidadão” (PCN, p. 189).
Finalizo com um escrito
constante da página 205 dos PCNs e que, segundo meu modo de pensar a educação
(não apenas a ambiental), define bem a situação a acontecer no cotidiano, na
escola, na vida:
É importante, por
exemplo, que, ao observar a água de um riacho ou a que sai de uma torneira, os
alunos se perguntem de onde ela vem, por onde passou e onde chegará e reflitam
(...) e, acima de tudo, saibam que a qualidade dessa água está diretamente
relacionada com as ações do ser humano. (PCN, p.105)
Ou
seja, um pensar filosófico...
Referências
ALVES, Rubem. Educação dos Sentidos e Mais…
Campinas: Verus Editora, 2005.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros
Curriculares Nacionais: meio
ambiente. Brasília: MEC/SEF, 1997.
SEMAD – Secretaria de Estado de Meio Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável – Portal Meio Ambiente - MG. Educação ambiental para autotransformação. Disponível em: